Já tinha dito em alguns posts atrás que adorava programas do tipo antes e depois, o Extreme Makeover incluído.
É muito bacana ver como uma mudança pequena (bom, às vezes a mudança é realmente gigante) faz tanto bem pra uma alminha atormentada com algum aspecto do seu corpo que lhe desagrada. Tinha uma mocinha que era formada em publicidade, mas que trabalhava de atendente de um restaurante fuleiro, porque tinha tanta vergonha de si mesma que não tinha coragem de buscar um emprego. Veja, a pessoa não tinha coragem de encarar uma entrevista, mesmo sabendo de seu talento. Que coisa cruel.
Tenho visto em alguns blogs a referência ao programa passado, em que uma mocinha chorava loucamente de felicidade quando arrumou os dentes. Foi lindo, mesmo. Ela não sorria, porque ficava mortificada de vergonha. Os incisivos faziam um ângulo de 45 graus pra fora da boca, os dentes de baixo (os quatro da frente, únicos que ela tinha) estavam pretos, apodrecidos. Judieira. A maldição do não-sorriso, que coisa mais triste. Quando o dentista arrumou tudo, arrancou os dentes imprestáveis e colocou os novos, essa mulher se pendurou no pescoço dele e chorava chorava chorava. e eu emocionada junto, ca-la-ro, que sou manteigona.
Mas choro mesmo foi num episódio anterior a esse. Uma senhora muito simpática tinha a audição muito prejudicada, era quase completamente surda. Uma das coisas que queria fazer, além da funilaria e pintura básica, era, justamente, uma cirurgia pra corrigir a falta de audição. Só que o ouvido dela era tão comprometido, que não seria possível uma intervenção cirúrgica. Então, eles providenciaram o melhor aparelho de audição que o dinheiro era capaz de comprar, com um esquema digital pra captação de sons. Segundo os especialistas, a audição seria quase igual a de uma pessoa normal. Assim que ela colocou o aparelho, descobriu como o mundo era maravilhosamente barulhento.
Daí, eles contrataram uma orquestra, fecharam um teatro só pra ela, e ela ficou lá, de olhos fechados, ouvindo a música e chorando maravilhada. E eu junto, que isso foi demais pro meu coraçãozinho.
A felicidade definitivamente está nas pequenas coisas. E viva a medicina.
Na quarta, estávamos vendo o capítulo da novela das oito, no qual a forever-Heleninha-Roitmann entrava num salão de beleza e pedia pra mocinha que queria fazer tudo, que queria rejuvenescer uns dez anos.
Ou gód. Ela errou de lugar. A porta do Extreme Makeover é do outro lado da rua, fia.
Namorado, Kath, Paty, Vane, Vive, Carol, Amora, Yara, Si, Dani Patifa, Ju, Maritza, Carla, Cam, Desconhecido, Lu, Caroline, Solange, Luiza, Sabine, Anita, Inagaki, William Wilson, Despudorada, e pessoas que mesmo não tendo falado nada, mandaram carinho de longe.
A vó foi pro hospital na segunda feira passada, mas mandaram ela pra casa. Na quinta, foi de novo, e ainda tá lá, sabe Deus até quando.
Então, nesse tempo que passo lá, vigiando o sono e as dores e as alucinações dela, tenho refletido muito sobre as coisas importantes da vida, e sobre escolhas que fazemos, e sobre como podemos ser fortes mesmo sem saber que tínhamos essa força toda dentro de nós, e sobre tudo enfim.
Tenho pensado muito em como é importante não ser avarenta nas afeições. Minha vó sempre foi uma pessoinha muito difícil de lidar, cheia de amarguras e rancores acumulados, cheia das manias de perseguição, vivia achando que todos estavam contra ela e que tudo era de propósito. Não compensa. Agora ela depende quase que exclusivamente da minha mãe, pra comer, pra beber, até mesmo pra se manter limpa - logo minha mãe, a quem ela nunca demonstrou afeto.
Vejo como é importante ter as pessoas que a gente ama do nosso lado. Namorado.tudo saiu despirocado pro hospital na sexta, só pra me dar um beijo e um abraço, uma recarga rápida de amor expresso, porque eu ia passar a noite lá. A irmã-mais-doce-do-mundo veio pra ficar um pouco conosco. A Kath e o Paulo e a Alix foram lá em casa no sábado, só pra me dar um cheiro e me levar um brownie - o mais gostoso que já comi até hoje, porque o gesto que ele representa dá todo um novo tempero. A Vane, minha amada, prometeu as orações, a Paty me escutou, e as pessaos amigas vão aparecendo pra mandar beijos e desejar força. Vocês vão aparecendo pra desejar força. Essa energia me toca de um jeito inacreditável. Mesmo de longe, o carinho vem rápido.
E passar a noite no hospital. Nunca tinha feito isso antes. Ficar acordada a noite toda, tirando cochilos de dez minutos - o tempo que a vó conseguia dormir - acordando a cada respiração mais brusca. O relógio da igreja do lado também toca os sinos durante a noite, e ouvi cada uma das badaladas. O piso do corredor do hospital tem 62 fileiras de lajotas no comprimento, por 7 lajotas de largura. Eu sei o nome de todas as enfermeiras. A gente faz xixi de porta aberta, pra ouvir qualquer manifestação da vó. Sedativos têm o efeito de enrolar a língua dela, não conseguimos entender mais o que ela fala. Ela não acredita em nós quando está tendo alucinações. Ela quer acreditar em nós quando está lúcida. Eu agüentei passar uma noite no hospital, passei pelo batismo de sangue. Mas continuo não conseguindo olhar pro machucado na perna da vó. E eu nunca tinha reparado como os olhos dela são tão pequenos.
As enfermeiras são umas docinhas. Acho que elas nunca viram uma velhinha tão velhinha por lá, tão parecida com um passarinho frágil, e ficam todas emocionadas. Elas cuidam da gente também. As pessoas que visitam outras no hospital são muito mal-educadas. Não se pode falar alto em hospitais. Definitivamente, não se pode fumar em hospitais. As pessoas não têm coragem de admitir que não sabem lidar com as doenças e inventam desculpas fascinantes.
Os quadros na parede da Santa Casa revelam detalhes interessantes. No meio de um monte de senhores, há um moleque sorridente. Um dos senhores sentados está com uma meia xadrez. Todos os senhores têm lenços nas lapelas. O vidro da janela na foto está quebrado. As freiras-enfermeiras na foto têm todas um ar resignado. Há uma placa com uma homenagem da associação dos choferes. Eu nem sabia que havia associação de choferes. A samambaia da foto parece precisar de água.
O tempo passa de forma diferente em um hospital. Ele é contado a cada dose de remédio e em quanto tempo falta pra próxima dose de analgésicos. E, claro, pelas badaladas da igreja ao lado.
amo
tatinho, gosto de café, cheiro de filhote, beijo na boca, fungada no cangote, chocolate,
dormir no sol, música boa, jogar conversa fora, caipirinha de morango com vodca,
bichos de estimação que dormem no colo da gente, passear no parque, conhecer
gente nova, cozinhar, ler, lavar o cabelo, fazer maquiagem, rir muito, sabor de pimenta,
dança do ventre, feriado, sexo com qualidade, cheiro de banho, homem cheiroso,
minhas tatuagens, sapatos
odeio
pagode bundinha, gente babaca, mau humor, coração de galinha, moela, ressaca, buzina,
invasão de território, levar um cano, levantar muito cedo, ficar com a bexiga cheia,
meia desfiada, fatura de cartão de crédito, mau hálito